Camboja

ANGKOR. Com cerca de 400km2 de extensão e uma centena de templos, a antiga capital khmer exige três dias de visita. Na fotografia, o mosteiro de Ta Prohm (século XII).

O Camboja cativa o visitante desde o instante em que o avião aterra em Phnom Penh, a capital. A sua maior atracção é o sorriso da população. É tão autêntico que, mesmo nas esculturas de Angkor Wat, os deuses foram recriados a sorrir.

Texto: Georgina Higueras

A viagem simbólica começa em Phnom Penh, numa primeira descida aos infernos de uma cidade que em tempos foi a Pérola da Ásia. Prolonga-se depois com a ascensão ao Olimpo do hinduísmo perpetuado na centena de templos angkorianos. O Paraíso reflecte-se na natureza bravia que envolve Battambang e nas praias de areia branca da península de Sihanoukville.

Nas margens do Mekong, artéria vital do Sudeste Asiático, Phnom Penh recuperou a sua antiga beleza, entrelaçando a arquitectura khmer com os vestígios coloniais e os edifícios modernos. A capital cambojana vibra agora com mercados vistosos, pequenos hotéis encantadores, restaurantes selectos, bares e esplanadas, que permitem usufruir desta cidade durante as 24 horas. Cada etapa da história foi aqui reconstruída, incluindo as fases mais sombrias, com a esperança de que estas não voltassem a repetir-se.

Sobre uma colina ajardinada, o Palácio Real constitui o principal conjunto monumental da cidade. Enquanto o futuro do reino era disputado pelas ambições francesas e tailandesas, Norodom I, logo após a subida ao trono em 1860, ordenou a sua construção. Três anos depois, optou por negociar um acordo de protecção com França, decidindo transferir a capital de Oudong para Phnom Penh e instalando-se no recinto palaciano acabado de construir, composto por quatro edifícios. Destacam-se a Sala do Trono e o Pagode de Prata, cujo pavimento está forrado com cinco mil placas de um quilograma deste metal. No interior, venera-se o Buda Esmeralda e o Buda de Ouro. Milhares de diamantes estão encastrados na coroa.

Em 1430, Phnom Penh sucedeu a Angkor como capital do Camboja e chegou a ser uma das cidades mais pujantes da Ásia. No final do século XVIII, foi arrasada pelos tailandeses, pelo que foi reconstruída de raiz.

O seu traçado actual reflecte por isso mais a tradição francesa do que a disposição original. Apesar da vaga imparável de urbanismo, que encheu a cidade de torres de aço e de vidro, as ruas do centro e muitas mansões e edifícios foram poupados e constituem belos exemplos da construção colonial.

A maior singularidade de Phnom Penh, no entanto, é ter sido o principal cenário da loucura dos khmers vermelhos. Em 1972, o chefe de Estado Sihanouk, que abdicara anteriormente como rei, foi deposto por Lon Nol, um ditador apoiado pela CIA. Em breve, o Camboja mergulharia numa deriva anticomunista interrompida pela conquista do poder por parte dos revolucionários maoístas que implantaram novo regime de terror.

Em quatro anos (entre 1975 e 1979), os khmers massacraram um quarto da população. Terra Sangrenta, o filme premiado de Roland Joffé baseado no relato do jornalista Sydney Schanberg, do The New York Times, reflecte com realismo cru a fuga dos estrangeiros face ao avanço dos khmers vermelhos e a ferocidade deste exército de camponeses-soldados contra a população civil.

Para conhecer a tragédia do Camboja, é fundamental uma visita ao Museu de Tuol Sieng, um antigo instituto onde funcionou o centro de detenção e tortura mais sinistro do regime de Pol Pot, o S-21. Nas humildes salas de aula transformadas em celas e, desde 1995, em salas de exposição, expõem-se instrumentos de tortura, registos, confissões e fotografias de mais de 17 mil homens, mulheres e crianças ali aprisionados antes de serem enviados para o campo de extermínio de Choeung Ek. À porta do Tuol Sieng, que se localiza no centro da cidade, encontram-se sempre tuk-tuks e táxis que conduzem o visitante a Choeung Ek. Neste parque a cerca de oito quilómetros da cidade, foram localizadas 129 valas comuns, com a maioria dos cadáveres de mãos atadas e olhos vendados. Na estupa construída em 1988 para honrar a memória dos mortos, conservam-se à vista os crânios de cerca de oito mil cambojanos.

Depois da imersão no passado funesto do país, nada melhor do que dirigir-se ao pico da espiritualidade cambojana. Existem voos de Phnom Penh para Siem Reap, a 320 quilómetros de distância, mas uma viagem de automóvel permite descobrir a paisagem do país.

mapa Camboja

Camboja, um país de contrastes:

1 Phnom Penh. Na capital, recordam-se as vítimas do regime de Pol Pot no Museu Tuol Sieng e no antigo campo de extermínio de Choeung Ek.

2 Siem Reap. Esta cidade converteu-se na principal porta de entrada no país graças à sua proximidade das ruínas de Angkor, a lendária capital khmer.

3 Tonle Sap. A travessia de um dia em barcaça liga Siem Reap a Battambang através da selva.

4 Battambang. Cidade colonial rodeada de arrozais. Aqui, visita-se a escola de circo Phare Ponleu Selpak, o templo Phnom Sampeau e a Gruta dos Morcegos.

5 Sihanoukville. Província com praias de areia branca, como as de Sokha, Serendipity e Otres. A ilha de Koh Rong é outra atracção desta zona.

Angkor, esta fabulosa cidade dos deuses, engolida pela selva depois do saque tailandês em 1432, foi redescoberta em 1860 pelo explorador francês Henri Mouhot. A sua beleza e os enigmáticos sorrisos do templo Bayon produziram uma vaga de orientalismo na Europa, aumentada nos últimos anos pela saga Tomb Raider, baseada nos videojogos com omesmo nome eprotagonizada por Angelina Jolie no cinema.

A realidade supera largamente a ficção quando se contemplam as raízes que, como tentáculos de um polvo gigante, abraçam o templo Ta Prohm e transformam a sua construção, conferindo-lhe estranhas formas. Como noutros templos, a selva triunfa aqui na sua luta eterna contra a obra do homem.

Os templos de Angkor foram construídos ao longo de seis séculos do império khmer, entre os anos 802 e 1432. Os khmers adoptaram um hinduísmo primitivo que enriqueceram com outra crença também proveniente da Índia, o budismo. O líder unificador do império, Jayavarman II, autoproclamou-se representante de Xiva na Terra e, de acordo com a tradição hindu, ordenou a construção de um santuário que simbolizasse o mítico monte Meru, que ocupa o centro do universo na simbologia religiosa. O pico mais alto é a morada de Xiva. Convencidos de que a morada terrena dos deuses os aproximava do céu, todos os monarcas mandaram alargar ou construir templos maiores do que os precedentes. A alteração nos sistemas de crença produziu um grande impulso na criatividade das construções. Assim, quando chegou ao trono em 1113, Suryavarman II, devoto de Vixnu, dedicou a este deus o mais belo e grandioso lugar, Angkor Wat.

Pouco depois, Jayavarman VII, que reinou entre 1181 e 1220, mandou construir a cidadela de Angkor Thom. O centro é ocupado pelo templo Bayon, com as suas 49 torres de estilo barroco khmer, decoradas com enormes rostos serenos, de olhos e sobrancelhas oblíquos que, a partir dos quatro pontos cardeais, observam os visitantes com enigmáticos e calorosos sorrisos, desenhados nos lábios voluptuosos de pedra. As caras representam Avalokiteshvara, o bodisatva da compaixão, mas também o rei, em cuja cidadela viveram mais de um milhão de pessoas. Agora, porém, os súbditos são mais mundanos. A cidade está tomada por macacos que assaltam os visitantes para lhes roubarem bananas – são o ganha-pão de uma imensidão de vendedores locais.

Centenas de milhares de homens e milhares de elefantes (os animais transportavam rochas de 1,5 toneladas de peso e os homens esculpiram-nas) trabalharam em Angkor Wat, uma obra colossal protegida por um fosso alagado de 190 metros de largura. O acesso ao recinto, o único da floresta de templos onde sempre viveu pelo menos um monge, é garantido por um passadiço de arenito com uma balaustrada esculpida em forma de naga, a mítica cobra de cinco ou sete cabeças. Três mil encantadoras apsarás (bailarinas celestiais) decoram as paredes exteriores com mais de um quilómetro de comprimento. Os baixos-relevos têm enorme diversidade pictórica. Descrevem cenas do céu e do inferno, de navegadores em busca do elixir da imortalidade, de batalhas e desfiles militares, com elefantes ajaezados para o combate. Representam também o Mahabharata, o lendário poema épico da literatura indiana.

Situada a uma dezena de quilómetros da cidade de Siem Reap, Angkor tem cerca de 400km2 erequer pelo menos três dias de visita. O visitante pode recorrer a bicicletas, motorizadas ou tuk-tuks. Esta é uma boa opção, pois os motoristas que conhecem a zona fazem muitas vezes o papel de guias e fornecem informações úteis. Para experimentar toda a mística do lugar, aliás, o viajante deve entrar em Angkor antes que se esfume a neblina nocturna para assistir ao momento mágico em que os primeiros raios de sol alaranjados despertam as pedras e os templos ressurgem da obscuridade como se saíssem de um sonho.

Os arredores de Siem Reap permitem complementar a visita aos templos com passeios pela cidade moderna, repleta de mercados, cafés e bancas com enormes recipientes de vidro onde se repousam os pés. No interior, dezenas de peixes mordiscam os pés, proporcionando uma relaxante massagem. Durante o dia, as ruas principais fervilham de transeuntes que passeiam entre as bancas de artesanato e as lojas de vestuário. À noite, a luz dos néons e das velas iluminam o centro. Os restaurantes colocam as mesas no centro da rua e praticam ementas com preços para todo o tipo de carteiras.

Uma excursão fluvial pelos 65 quilómetros que separam Siem Reap de Battambang será certamente um dos momentos mais exóticos da viagem. A barcaça, em cuja cobertura se acomodam muitos viajantes, navega pelas águas do Tonle Sap, o maior lago do Camboja, passando em frente de barcaças onde se vende tudo e reduzindo frequentemente a marcha para recolher aldeãos que se aproximam de chalupa. Por vezes, chegam com sacos e bolsas que transferem cuidadosamente de uma embarcação para outra. A viagem exige um dia e percorre canais abertos entre a vegetação. Em mais de uma ocasião requer que o barqueiro e o ajudante se munam de machetes para cortar os ramos que impedem a passagem. Battambang é uma cidade provinciana, implantada na selva pelos habitantes que lutam diariamente para evitar que esta devore os seus férteis arrozais. Aqui, o tempo parece reduzir a sua voragem. Os passeios são mais lentos e os habitantes locais gostam de ensinar os seus ofícios cerâmicos e a arte de madeira.

Neste ambiente de aprendizagem, destaca-se a escola de circo Phare Ponleu Selpak que, duas vezes por semana, organiza espectáculos com exibições dos seus melhores alunos.

Battambang fica muito próxima da fronteira, onde se refugiaram dezenas de milhares de cambojanos durante as décadas de 1970 e 1980. Naturalmente, a cidade também preservou vestígios do genocídio khmer, como a gruta para onde eram atirados os prisioneiros, hoje convertida numa sinistra atracção turística. Mas centremo-nos nos seus templos e na natureza. Após a visita a Phnom Sampeau, que acolhe uma imponente estupa e um dos santuários mais importantes da região, o visitante poderá deambular pelo centro da cidade que conserva belos edifícios coloniais, cercados de restaurantes e cafés acolhedores.

Depois de um delicioso almoço à base de peixe do rio com leite de coco, não deixe de visitar a Gruta dos Morcegos, uma das maiores curiosidades de Battambang que maravilha locais e estrangeiros. Na gruta, vivem cinco milhões destes mamíferos alados que, com a precisão de um relógio, saem todas as tardes ao pôr do Sol em gigantescas debandadas que escurecem o céu. Os turistas colocam-se em frente da gruta para os ver iniciar o voo em formação, como se fosse uma densa coluna de fumo de um incêndio. A expedição nocturna produzirá a morte de milhões de mosquitos nas redondezas.

No final de 2017, o governo, que impulsiona a modernização dos transportes, proibiu a circulação do comboio de bambu, assim denominado porque o seu vagão era uma simples prancha confeccionada com canas de bambu e que realizava a viagem a uma velocidade média de 15km/h. Tratava-se de um pequeno percurso sobre velhas linhas implantadas na floresta e sobre pontes ferroviárias da época dos franceses. Ao chegar à banca das bebidas que fazia de destino, após uma hora de viagem, o comboio era desmontado para deixar passar a composição que deveria seguir em sentido contrário, pois existia apenas uma via. Esta encantadora tradição foi agora recuperada perto de Wat Banan, a vinte quilómetros de O Dambong.

A viagem de oito horas de automóvel até Sihanoukville é cansativa, mas compensa o desgaste com a contemplação das esplêndidas praias de areia branca e águas turquesa desta península meridional. Na capital, com o mesmo nome, encontra-se o cais para a ilha de Koh Rong, muito próxima e que é o paraíso do turismo de mochila. A província de Sihanoukville deve o seu nome a Norodom Sihanouk, o rei que conquistou a independência do Camboja em 1954 e que, apesar das oscilações de poder, golpes, cárceres e exílio, dominou a vida política deste país até à sua morte em 2012. Existem praias para todas as sensibilidades: tranquilas ou buliçosas, como a de Serendipity com uma intensa vida nocturna; concorridas ou solitárias como a de Otres. Escolha-se uma: a de Sokha, sobre cujo amplo areal se inclinam os bonitos jardins dos complexos turísticos próximos, afigura-se um local excelente para colocar um ponto final numa viagem repleta de exotismo e sorrisos, a imagem de marca do Camboja.

 

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