Rio Douro

Talvez o Douro seja mesmo feito de ouro. Os percursos pedestres nas margens do rio reconciliam-nos com a vida.

Texto: Hugo Marques

O terceiro maior rio da Península Ibérica projecta-se num vale profundo no seu curso superior, rasgando oterritório português como a obra de um escultor. Do passado, sobram memórias de um rio selvagem com momentos de genuína fúria quando espicaçado pelas abundantes chuvas de Inverno e Primavera. Ao visitá-lo em 1936, o geógrafo Orlando Ribeiro escreveu: “Estou encantado com as antiguidades, mas não menos com a natureza. A arriba do Douro é das cousas mais impressionantes que conheço.”

Hoje, com vários aproveitamentos hidroeléctricos ao longo do percurso, as suas “explosões” são mais contidas, não deixando contudo de ser belo. Este território selvagem, no coração da terra transmontana, está marcado por ocupações humanas que remontam ao Paleolítico Superior. O célebre cavalo de Mazouco é uma das provas desta presença. Este lugar remoto está hoje integrado no Parque Natural e a paisagem ordenada apresenta um património natural único.

Manchas de azinheira, carvalho-negral e velhos bosques de zimbro preenchem um espaço quase intocado, que se completa com o ex-líbris deste ecossistema: a avifauna.

O grifo tem aqui a sua maior colónia com 1.600 casais divididos entre a vertente portuguesa e a espanhola. O pequeno britango, símbolo do Parque Natural do Douro Internacional, escolhe estas paragens para nidificar. O recém-chegado abutre-preto é agora presença com dois casais nidificantes. A silhueta da esquiva cegonha-preta brinda-nos também com o seu voo gracioso. No canhão do Douro, a majestosa águia-real evolui, observando antigos pombais e o planalto envolvente.

abutre-preto

Um território bem conservado convida à descoberta de percursos fascinantes. Vale de Águia, Vilarinho dos Galegos, Santo André,Os Santos, São Facundo, São João das Arribas, Carrascalinho, Calçada de Alpajares, são topónimos de lugares carregados de história que só a tradição oral mantém viva. As marcas de velhos ritos estão lá, como o castro convertido em capela, o judeu que se tornou cristão-novo, os antigos Caminhos de Santiago e a festa que honra o santo que no passado foi pagão.

Os caminhos perdem-se na memória. Alguns são fáceis de vencer, outros exigem mais, mas o essencial é parar para escutar e observar com a solenidade que o coração do Douro Internacional requer.

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