Paul Arzila

Um corvo-marinho-de-faces-brancas seca a plumagem após pescar nas águas do Paul.

Escondido junto da povoação de Arzila, no vale da ribeira de Cernache, o Paul de Arzila representa um pequeno reduto daquilo que já foi, em tempos, todo o vale do Baixo Mondego: uma gigantesca zona húmida.

Texto: Manuel Malva

Com a exploração e intensificação da agricultura, o vale do Mondego, outrora dominado porzonas alagadiças, foi drenado e explorado para as mais diversas culturas agrícolas. Hoje, dominam os arrozais e os milheirais, cobrindo de forma praticamente contínua os trinta e cinco quilómetros de extensão do vale do Baixo Mondego, desde Coimbra até próximo da Figueira da Foz.

Em 1988, perante a evidente degradação desta zona húmida de relevância internacional, foi decidido criar a Reserva Natural do Paul de Arzila, assegurando valores de conservação essenciais e procurando um equilíbrio entre as actividades humanas e as necessidades da vida selvagem.

Refúgio de um amplo leque de biodiversidade, é assim que se nos apresenta este paul à chegada ao Centro de Interpretação, ao fundo da povoação de Arzila. Antes de se embrenhar na vegetação do paul, poderá ficar a conhecer as principais espécies que ocorrem neste local.

Paul Arzila

O caudal do Paul de Arzila oscila consoante as estações do ano, ora alagando as margens, ora recuando.

Após sair do Centro de Interpretação, o percurso de cerca de três quilómetros acompanha uma área florestal com características atlântico-mediterrâneas, onde poderá contemplar espécies arbóreas características da floresta nativa portuguesa. Atente nos exemplares maduros de carvalho-alvarinho e carvalho-português, acompanhados pontualmente por sobreiros. No sub-bosque, abundam medronheiros, loureiros e sanguinhos-das-sebes.

A diversidade do coberto vegetal reflecte-se na pluralidade de espécies animais que ocorrem neste local. Extremamente furtivos e arredados do olhar humano, poderá ter a sorte de vislumbrar mamíferos como a raposa, a gineta ou a fuinha, se percorrer estes bosques às primeiras horas do dia ou momentos antes do crepúsculo.

Mais fácil de detectar é o esquilo-vermelho, saltando entre as copas e sempre curioso perante a presença do visitante. Neste local, não perca ainda a oportunidade para treinar a observação e identificação de aves florestais, uma vez que elas têm, nestes bosques, o seu habitat predilecto.

Descendo ao paul, a vegetação muda radicalmente, surgindo espécies vegetais perfeitamente adaptadas ao alagamento permanente e à oscilação do caudal provocada pela estação das chuvas. Parte do espelho de água é densamente dominado pelo caniço, pelo bunho e pela tabua, conferindo um habitat de excelência para a reprodução e repouso de um vasto leque de espécies de aves. Um olhar cuidado sobre a orla do caniçal poderá revelar uma garça-vermelha, espécie emblemática que tira partido da segurança do paul para nidificar, bem como o caimão, reintroduzido nesta zona húmida no final do século passado.

Paul Arzila

Nas margens das valas e na borda das massas de água, repare nas espécies características das galerias ripícolas, como o salgueiro e o choupo. Se as perscrutar atentamente, poderá encontrar um corvo-marinho secando a plumagem ou uma das várias colónias de garça-real que ali se estabelecem. Sob as suas copas, todas as atenções são poucas para detectar a esquiva lontra, que apresenta neste Paul densidades bastante interessantes, bem comprovadas pelos inúmeros indícios da sua presença, que poderá facilmente encontrar ao longo do trilho.

Para optimizar as sessões de observação e contemplação da vasta biodiversidade que ocorre no paul de Arzila, não abdique de fazer uso das várias estruturas de observação de madeira existentes, onde poderá passar despercebido e contemplar confortavelmente toda a azáfama de vida ao seu redor.

 

Pesquisar