rota de Dom Quixote

Consuegra. Esta povoação conserva 12 dos seus 13 moinhos, todos alinhados no Cerro Calderico, onde se ergue o castelo de Muela, edificado entre os séculos X e XIII.

A Espanha de Cervantes inspirou um dos livros mais traduzidos do mundo. Os cenários da obra são a inspiração para esta viagem apaixonante através de uma paisagem geopoética.

Texto: Pedro García Martín

A rota de Dom Quixote é uma viagem de aventuras. O percurso é definido pelo trote de Rocinante.

O meio de transporte varia de acordo com o estatuto social: o cavaleiro monta um cavalo escanzelado com elegância, o escudeiro segue sobre um burro.

Dom Quixote enverga uma armadura amassada e usa a lança em riste, enquanto a roupagem do criado é rústica como ele. Abrigam-se por vezes em refúgios à beira da estrada e mais frequentemente sobre o solo cobertos apenas por um manto de estrelas. A comida consiste mais no que oferecem os carvalhos generosos (embora a regra seja o jejum) do que em copiosos banquetes (a excepção). Além dessas contrariedades, a aventura condu-los a maus encontros, disputas e à fadiga. Os esforçados andarilhos, metáforas do anti-herói, regressam sempre a casa moídos e cansados. O próprio Cervantes reconhece que o seu romance não segue um itinerário, pois não tem uma visão linear do caminho. Na verdade, o que traça é “uma cartografia de encruzilhadas”. Por isso, a melhor opção passa por cada viajante organizar o seu próprio itinerário, mantendo-se tão fiel como possível ao livro. No prestigiado Quijote de Ibarra, publicado pela Academia da Língua em 1773, o geógrafo Tomás López traça um roteiro pessoal sobre o mapa de Espanha. Em 1905, Azorín, pseudónimo de José Martínez Ruíz, escreveu as suas crónicas locais para El Imparcial, levando consigo lápis, papel e um... revólver! E, em 2015, Julio Llamazares compôs os seus artigos para o El País armado apenas com a sua prosa lírica e com a máquina fotográfica do seu amigo Navia. Como se percebe, existem tantas rotas de Dom Quixote quanto viajantes apaixonados pela obra.

Começamos pelo lugar de La Mancha, onde morava Alonso Quijano. Qualquer pequeno lugar da região serve bem, pois o escritor não quis dar o seu nome a nenhum. Basta considerar uma pequena aldeia no fim do mundo. Um quintal do império global criado pela monarquia hispânica. Um casarão onde vivia a pequena família de um cavaleiro empobrecido. Um bairro de camponeses que se sentiam súbditos do rei católico e temiam Deus. É uma micro-sociedade onde as forças vivas – o cavaleiro, o padre, o bacharel e o barbeiro – explicavam aos amigos analfabetos o que acontecia fora da povoação. Como era possível não perder a razão com a insensatez de sonhar com romances de cavalaria? Dom Quixote e Sancho vão, portanto, para a estrada para ver o mundo. E fazem-no através de uma região de La Mancha sem contornos. Cervantes evoca a sua própria passagem pelo mundo rural: do casamento em Esquivias às viagens pela Andaluzia. Mas escreve a partir de grandes cidades, como a Sevilha da Carreira de Índias, a efémera capital Valladolid ou a corte de Madrid. Nestes ambientes urbanos, cuja cultura literária acolhia oficinas de imprensa e companhias de comédia, o pai de Dom Quixote procurou com ousadia a estreia teatral que lhe foi negada e o sucesso editorial que lhe sobreveio chegou quando menos esperava: na velhice e sem dinheiro nos bolsos.

O primeiro prodígio que o cavaleiro e o escudeiro encontram em Campos de Montiel são alguns moinhos de vento alinhados no topo de uma colina. Os mais bem preservados podem ser vistos hoje em várias localidades: Mota del Cuervo, Cerro de San Antón em Alcázar, Madridejos ou Miguel Esteban, embora os conjuntos mais fotogénicos se concentrem em dois municípios. No Cerro Calderico de Consuegra, formam uma linha de sentinelas que fazem guarda às guaritas de Castillo de la Muela, uma fortaleza muçulmana reconquistada pelos cavaleiros de São João. Na época da floração das rosas de açafrão, a especiaria mais cara do mundo, e flor da saúde que fortaleceu corações de faraós e reis, o moinho de Sancho começa a funcionar e realiza “a moagem da paz do amor”, uma actividade bem pensada para as crianças experimentarem as tradições de seus antepassados.

rota de Dom Quixote

A caverna de Medrano. A caverna do Alcaide Medrano, situada nu- ma antiga adega de Argamasilla de Alba, é uma das atracções da Rota de Dom Quixote. A tradição assegura que Cervantes esteve ali preso e que, durante a sua reclusão, es- creveu a sua obra. Isso incentivou o infante Sebastião de Bourbon a adquirir a mansão em 1863 para fins culturais, como a impres- são de um Quixote com prólogo de Juan Hartzenbusch, que reforçou a aura român- tica do lugar. Hoje é um edifício multiusos recuperado.

Em Campo de Criptana, cujos moinhos de vento Burleta, Infanto e Sardino são contemporâneos de Cervantes, existem outros exemplares que foram transformados em museus. Entre eles, destaca-se o dedicado à actriz Sarita Montiel, a Dulcineia do século XX, que triunfou em Hollywood e superou Elvis Presley e Frank Sinatra com a venda do seu single La Violetera. Existe algum humor cervantino nesta história de uma beleza de La Mancha saída de Espanha para atrapalhar o star system norte-americano.

Na Espanha de Quixote, quando os moinhos eram ainda uma inovação tecnológica recente, os moinhos de vento situavam-se frequentemente nas colinas das cidades de La Mancha. A corrente constante que varre a planície movia-os incessantemente.

Além disso, na ausência de bancos e empresas para investir, os plebeus ricos que administravam as terras dos proprietários ausentes investiam as economias na sua construção. Portanto, é de certa forma lógico que Dom Quixote visse nas suas pás os punhos de gigantes. Ainda hoje, os moinhos de vento actuais vistos de perto parecem-nos um pouco ciclópicos. De alguma forma, a percepção quixotesca nasceu sobretudo pelo impacte mental produzido por essas máquinas, o que reduz a sua loucura e faz de Quixote um ludita manchego à frente do seu tempo.

A primeira parte do romance é uma espécie de circuito manchego. Os dias começam no momento em que Dom Quixote é armado cavaleiro acreditando estar num castelo. Estava, na verdade, num albergue para viajantes e cavaleiros – um dos poucos pontos seguros na estrada real que ligava Toledoa Sevilha. Pelo seu trajecto, transitavam os metais preciosos que chegavam das Índias e, na direcção oposta, as mercadorias exigidas pelos navios da frota. Por este motivo, juntamente com almocreves e camponeses, deambulavam por esses lugares patifes e bandoleiros que assaltavam os viajantes. Alguns desses albergues tradicionais sobrevivem em Borondo, Puerto Lápice e Molinillo, antes da entrada nos perigos da serra Morena. No albergue La Inés, os habitantes encenam um drama humano semelhante ao dos Santos Inocentes.

A baixa densidade populacional, a ampla planície e o modo de vida agrário criaram povoações distantes. Em Dom Quixote, Cervantes faz alusão a essas vilas governadas por agricultores ricos.

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Um território integrado na memória colectiva

1 Mora de Toledo. O Castelo de Peñas Negras (séc. XII) oferece magníficas perspectivas da paisagem geopoética de Dom Quixote.

2 Villacañas. As suas lagoas acolhem uma população de flamingos. Os silos ou casas subterrâneas ainda são usados.

3 Madridejos. Povoação acolhedora com importantes edifícios religiosos e nobiliárquicos e um museu dedicado ao açafrão.

4 Consuegra. Tem 12 moinhos restaurados. Na fortaleza de Muela, morreu, em 1097, Don Diego, filho de El Cid

5 Alcazar de San Juan. Cidade monumental na antiga via romana que unia Mérida a Saragoça.

6 Quintanar de la Orden. Possui três ermidas singulares e uma igreja paroquial do século XV. Deve o nome à Ordem de Santiago.

7 Campo de Criptana. O Museu Cervantino expõe edições de Dom Quixote em diferentes línguas.

8 Tomelloso. Em adegas escavadas no subsolo, repousam famosos vinhos locais.

9 Lagoas de Ruidera. Este oásis de água e vegetação é o lar de uma variada avifauna.

É o caso de Argamasilla de Alba, onde o culto da caverna de Medrano continua a ser alimentado, apesar de se saber que é uma criação do romantismo. Almodóvar del Campo, por sua vez, era um dos epicentros do transporte por estrada, que abastecia o reino “de porto a porto”. El Toboso preservou na memória colectiva o tipo de mulher ideal que deveria ser a inigualável Dulcineia, desaparecida que estava a rústica e mourisca Aldonza Lorenzo. A tal ponto que, ainda hoje, nas fiestas patronales (as festividades anuais dedicadas aos santos patronos) é eleita uma Dulcineia e algumas damas de honra, que são jovens com a educação e as ilusões de qualquer jovem moderna, tão bonitas e frescas como aquelas com que o cavaleiro andante sonhava.

Na etapa seguinte, cortando caminho por veredas e pastagens, evoca-se o cavaleiro da triste figura, investindo de lança em punho contra rebanhos de ovelhas prontas para lutar na planície. Esta imagem é indelével da paisagem histórica de Castilla. As cabanas transumantes de Mesta, em tempos nutridas e agora minguadas, espalham-se pelas cañadas reales. O rio, merino de lã branca, desagua no mar amarelo de restolho. A silhueta sombria e o rosto bronzeado do pastor destacam-se no horizonte. A polifonia de balidos e chocalhos ressoa nos campos. São as marcas da cultura rural ibérica.

As rotas errantes de Dom Quixote e Sancho Pança, embora sem rumo, peregrinam pelos territórios das Ordens Militares.

As rendas das 14 vilas de Campo de San Juan, cuja cabeça era Alcazar, proporcionavam um rendimento substancial aos seus priores, que eram infantes da família real integrados na Corte. Os seus vestígios são hoje bem visíveis, desde as cruzes oitavadas dos campanários às ambulâncias de cruz branca pagas pela Ordem de Malta.

A albacetense Campo de Montiel, doada pelos reis medievais à Ordem de Santiago, foi confundida por Cervantes quando este aplicou o topónimo a todo o domínio de Santiago. Na segunda edição, corrigiu o erro, usando um plural ambíguo de Campos de Montiel. Nos seus limites jurisdicionais, encontra-se a caverna de Montesinos, perto da cidade de Ossa, onde ocorrem os eventos mais mágicos de Dom Quixote.

Uma galeria subterrânea da caverna permitia aos habitantes do sonho de Cervantes – o anfitrião, o mal ferido Durandarte, o padre Guadiana e uma Dulcineia – fazer visitas de boa vizinhança às Lagunas de Ruidera, uma senhora e as suas filhas, que o mágico Merlin transformou nos belos olhos lacrimosos da mãe terra. Embora pitoresca, esta parentela é o oposto de uma família má, pois mantém a cortesia, apesar de pertencer à nobreza generosa da Ordem de São João. É outra maneira de explicar a geografia física, com outra poesia e respeito pela tradição.

rota de Dom Quixote

Alcazar de San Juan. Dom Quixote e Sancho Pança cavalgam na Praça de Espanha em Alcázar de San Juan, povoação que reivindica ser o berço de Cervantes.

Quanto ao fértil vale de Alcudia, contava então com o rendimento dos calatravenses que viviam do aluguer de pastos aos rebanhos de Mesta. Na aldeia de La Bienvenida, encontram-se os vestígios da cidade romana de Sisapo e as pinturas pré-históricas de Peña Escrita. Por último, o Campo de Calatrava propriamente dito tem como sede Almagro e como fortaleza o castelo Calatrava la Nueva, onde os monges soldados repeliam os ataques islâmicos.

Na segunda parte de Dom Quixote, o périplo manchego continua em direcção aos estados da antiga coroa de Aragão. Nessas escalas do Levante, o cavaleiro é acolhido por duques no seu palácio e o escudeiro renega a governação depois das picardias na ilha Barataria. É provável que este topónimo corresponda à povoação de Alcalá de Ebro que, à maneira do Mont Saint Michel, tende a ficar “isolada” durante as inundações do rio.

Por fim, as duas personagens desembocam no mar “muito amplo” de Barcelona que, para migrantes oriundos do interior, lhes pareceu até “maior do que as lagoas de Ruidera”. No entanto, com o Mediterrâneo como pano de fundo, cenário do heroísmo e do cativeiro de Cervantes, o duo andaluz vive o seu pior infortúnio: Sancho é açoitado nas galeras e Dom Quixote é derrotado num torneio singular. Voltam assim para casa derrotados: um para se reunir com a esposa e a filha e o outro para se reunir ao Altíssimo.

Por fim, as duas personagens desembocam no mar “muito amplo” de Barcelona que, para migrantes oriundos do interior, lhes pareceu até “maior do que as lagoas de Ruidera”. No entanto, com o Mediterrâneo como pano de fundo, cenário do heroísmo e do cativeiro de Cervantes, o duo andaluz vive o seu pior infortúnio: Sancho é açoitado nas galeras e Dom Quixote é derrotado num torneio singular. Voltam assim para casa derrotados: um para se reunir com a esposa e a filha e o outro para se reunir ao Altíssimo.

A viagem decorre através da paisagem geopoética de Dom Quixote, ou seja, por um ambiente marcado pela literatura. Esta mistura de geografia e ficção torna quixotesco o próprio mapa da viagem. É no fundo uma aventura traçada pelo imaginário livresco que Cervantes coleccionara, onde o humor rural se cruza com a erudição. O discurso de Dom Quixote aos pastores da serra Morena, por exemplo, está repleto de referências aos mitos greco-latinos que animam a noite pastoral de amor ao fogo.

A rota de Quixote continua a ser uma viagem apaixonante, tantos anos depois da sua cartografia imaginada. Os guias estão bem ilustrados, os transportes são tão seguros como cómodos e a bagagem é uma mochila carregada de cultura. O alojamento e a comida estão garantidos por hotéis e restaurantes de qualidade. O viajante pode estar certo de que irá usufruir da viagem sem sofrimento ou penúria.

A rota termina com o regresso à origem. No decurso das suas aventuras, Dom Quixote sofre alterações de humor. O seu estado de alma transita da euforia à tristeza. Mas nada volta a ser igual após a sua derrota na praia de Barcino. De regresso a casa pela planície manchega, o cavaleiro vencido progride carregado de amargura. Padece já “da enfermidade da alma” como era conhecida a melancolia no Século de Ouro espanhol. Por fim, prostrado no leito da sua alcova e rodeado de familiares, Dom Quixote abandona este mundo. A personagem encontrará o seu lugar na geografia da eternidade, enquanto a sua rota ficará a viver no Parnaso da literatura universal.

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