Praia da Bordeira

Antiga aldeia de agricultores e guardadores de gado, a Bordeira reconverteu-se. Agora é o turismo de natureza que serve de motor económico.

O turismo de natureza mudou a velha aldeia piscatória, mas a Bordeira mantém o charme dos velhos tempos.

Texto: Elisabete Rodrigues

Quando se chega à aldeia da Bordeira, há dois aspectos que saltam à vista: o canteiro cheio de flores que bordeja a rua, separando-a da várzea retalhada em pequenos rectângulos cultivados, e, lá mais ao fundo, a pequena igreja. As flores estão lá ao longo do ano, variando conforme a época, mas sempre cuidadas por mão carinhosa. A igreja e a torre sineira parecem atarracadas, com uma fachada sem a habitual simetria. Destaca-se a brancura da cal e os elementos desencontrados da cantaria e dos trabalhos em argamassa. Terá sido construída no século XV, tem elementos do manuelino, mas grande parte do edifício data do século XVIII.

A Bordeira é hoje conhecida sobretudo pela praia, que, curiosamente, não se avista da aldeia, da qual dista cerca de quatro quilómetros, em linha recta. É por causa desta proximidade à Costa Vicentina que a economia local deixou de estar dependente da agricultura e pecuária para se voltar para o turismo.

Percorra as ruas da Bordeira até ao pequeno largo central, descanse à sombra das árvores e entre no café. Verá que os bordeirenses são hospitaleiros com os visitantes.

Bordeira

A cerca de cinco quilómetros, fica a aldeia da Carrapateira, essa, sim, em frente da praia que até se chama “da Bordeira”. O mar e o surf são hoje quem mais ordena, na Carrapateira. Tudo aqui está voltado para os novos turistas das ondas.

Quase no topo da encosta fica o forte, de onde se vigiava o mar, à procura de piratas. No interior das muralhas, a pequena igreja, onde se destacam os dois pórticos manuelinos. Curioso é o sino da igreja, com a inscrição WAIMATE, talvez originário de um navio aqui naufragado. Quem ali naufragou, de certeza, mas em 1555, foi a nau espanhola La Condesa, proveniente de Porto Rico e carregada de prata. Quatro séculos depois, em 1999,o mergulhador Vítor Cruz detectou 50 canhões de bronze afundados em frente do pontal da Carrapateira. O arqueólogo Jean-Yves Blot investigou o local, no início do século XXI. No entanto, a profundidade a que os vestígios se encontram e a força das correntes impediram que os vestígios desse naufrágio tivessem sido retirados do mar. Resta apenas uma evocação do episódio, no Museu do Mar e da Terra, que merece uma visita, até por força da enorme janela com vista para o mar.

Bordeira

Longe vão os tempos em que os habitantes da freguesia se dedicavam a amanhar a terra, no Inverno, e à pesca e apanha de marisco, no Verão. Os vestígios mais antigos dessa vida dupla encontram-se no sítio arqueológico do povoado sazonal islâmico de pescadores (século XII), junto do portinho do Forno, num promontório sobre o mar, escavado pela arqueóloga Rosa Varela Gomes. Ali perto fica o quase desactivado portinho da Zimbreirinha, exemplo da luta titânica do homem contra os elementos. O abrigo para as embarcações é uma frágil plataforma de madeira, construída na arriba, a dois metros da superfície do mar.

Outra actividade marinha sobrevive na freguesia: a apanha do percebe. São verdadeiros guerreiros do mar estes homens que descem as falésias agarrados a cordas, saltam de rocha em rocha e afrontam as ondas. Entre a terra e o mar: é sempre isto que define a Bordeira.

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