Donostia

ZUMAIA. O eremitério de São Telmo, implantado num penhasco esculpido pela acção do mar, tem vista para a praia de Zumaia.

Texto: Xabier Armendáriz

Quando se chega pela primeira vez a Donostia e se olha para o cais do Clube Marítimo, fica-se com uma sensação de irrealidade, como se este ponto fosse o epicentro de vários mundos.

Olhando em redor, a vista abarca o porto de pesca, a Cidade Velha, a praia de La Concha, as montanhas Urgull e Igeldo, bem como o Boulevard e os jardins de Alderdi Eder. Tudo isto emoldurado pela imponente fachada marítima que acompanha a baía. Depois desse primeiro olhar, surge uma vontade irresistível de explorar a pé todos os recantos da cidade. Porque Donostia, ou San Sebastián, é essencialmente uma cidade para ser percorrida sem pressa, imitando gerações de donostiarras que caminham pela Bella Easo (nome que evoca a antiga cidade romana de Oiasso ou Easo) quase como um ritual.

A jornada começa no porto, origem da cidade fundada em 1180 por Sancho, o Sábio, de Navarra.

“San Sebastián tem um portozinho que parece de bonecas”, escreveu Benito Pérez Galdós em 1884. De alguma forma, essa impressão perdura. Localizado no sopé do monte Urgull, o porto preserva todo o seu sabor tradicional. Nas arcadas, entre lojas de recordações e restaurantes de peixe fresco, os mercados de peixes dos arrantzales (pescadores) ainda sobrevivem e vêem-se mulheres a consertar redes nas docas.

A antiga ligação entre Donostia e o mar é explicada no final do passeio do Molhe, no Museu Naval (Untzi Museoa) e no Aquarium, de 1928. Este último exibe duzentos espécies de animais marinhos, do mar Cantábrico mas também de latitudes tropicais, desde tartarugas, raias e tubarões até um esqueleto de baleia franca, em homenagem ao passado baleeiro dos pescadores bascos.

A poucos metros do porto, concentram-se as ruas e praças da Cidade Velha, o coração de San Sebastián. Para chegar ali, parte-se da Alameda del Boulevard, uma artéria vital por onde se estendia a muralha que circundou a cidade até 1863. Agora, existe o mercado de Bretxa, que desde 1870 abastece os restaurantes mais famosos de San Sebastián. Donostia e gastronomia são um binómio inseparável e não é em vão que a cidade e a província conquistaram 18 estrelas Michelin. Qualidade e criatividade também podem ser encontradas em qualquer um dos muitos bares da Cidade Velha, entre as antigas lojas e produtos tradicionais da região.

Há bancadas repletas de pintxos, obras de arte culinária em miniatura que dão fama à cidade e cujo representante máximo, paradoxalmente, é o humilde, mas sublime Gilda: anchova, azeitona e malagueta num espeto de madeira. Seria pecado não terminar a refeição a tomar um café num terraço na Praça da Constituição, um antigo cenário de touradas e hoje palco de actividades culturais e concertos ao ar livre.

Vale a pena também entrar no Passeio Novo, um percurso de 40 minutos que circunda as encostas do monte Urgull. As ondas atingem a costa em dias de mar agitado num espectáculo natural carregado de brisa do mar e salitre. Outra opção é subir ao topo do Urgull e visitar o castelo da Mota.

Se pudesse falar, a fortaleza descreveria em pormenor os acontecimentos de 30 de Agosto de 1813, um dia negro na Guerra da Independência, quando as tropas anglo-portuguesas invadiram e queimaram a cidade, arrasando-a.

Donostia

MONTE JAIZKIBEL. O Jaizkibel é considerado o primeiro monte dos Pirenéus Ocidentais. As suas encostas mergulham no mar vertiginosamente. Com apenas 545 metros, oferece perspectivas espectaculares de todo o litoral até Donostia. A panorâmica da baía de Txingudi merece menção especial, com o núcleo de Hondarribia em primeiro plano e mais longe Hendaya, no País Bascofrancês. É ainda mais interessante seguir a rota de sete horas ao longo da costa. Apesar da duração e de algumas etapas complicadas, trata-se de um itinerário fantástico para observar rochas de arenito ou flysch como as da imagem.

A sobriedade do castelo contrasta com a arquitectura refinada do Teatro Victoria Eugenia, de 1912, e com as pontes mais antigas da cidade: Zurriola (1921), María Cristina (1905) e Santa Catalina (de madeira, do século XIV até 1870), que atravessam o Urumea e comunicam com o bairro de Gros, a praia sul de Zurriola e o Palácio Kursaal. O edifício inovador projectado por Rafael Moneo em 1999 ampliou a oferta de espaços para congressos e tornou-se um dos símbolos urbanísticos mais modernos da cidade.

No auditório, realiza-se a gala de abertura do Festival Internacional de Cinema, o grande evento do mês de Setembro, e Donostia tem um programa cultural vibrante ao longo do ano, com festivais de música como Jazzaldia e um evento de música clássica organizado desde 1939, bem como o festival de artes cénicas de Olatu Talka.

San Sebastián é um destino turístico popular há mais de um século, desde que a rainha María Cristina de Habsburgo decidiu passar o Verão na cidade, atraída pelas praias de La Concha e Ondarreta e pela moda dos banhos de mar. Foi assim que San Sebastián se viu imersa em plena belle époque. As personalidades mais proeminentes da aristocracia europeia competiam para se alojarem no Hotel María Cristina, gastando fortunas no Casino (na actualidade, é a sede da Câmara Municipal) ou recuperando de festas, bailes e excessos no Spa La Perla (actualmente, um centro de talassoterapia), localizado na praia de La Concha e considerado pela imprensa do início do século XX um dos mais belos do mundo .

A magia das praias de Donostia manteve-se desde então. É delicioso passear por La Concha. Com 1.350 metros de extensão, é um exemplo de praia urbana perfeita. Por vezes, o luxo donostiarra não precisa de mais do que sentar-se nos bancos do passeio ou ficar apoiado na balaustrada centenária, símbolo da cidade, para assistir ao pôr do Sol e, no Verão, saborear um magnífico gelado artesanal enquanto o fogo-de-artifício ilumina a baía.

Onde La Concha perde o nome, começa a praia de Ondarreta, a mais ocidental. O parque e Palácio de Miramar, outrora uma residência de Verão para a família real, delimita as duas praias, cujo passeio marítimo mede quase dois quilómetros. A ascensão ao monte Igeldo de funicular para obter uma perspectiva aérea ou admirar o Peine del Viento de Eduardo Chillida é, com frequência, o zénite da visita à cidade.

Para lá de San Sebastián, a oeste, existe um litoral famoso pela personalidade das suas aldeias e povoados. A aldeia piscatória de Orio é a escolha ideal para iniciar o percurso. No século XVI, muitos navios bascos zarparam deste porto para pescar bacalhau e caçar baleias nas distantes costas da ilha canadiana da Terra Nova. Entre esculturas modernas de Jorge Oteiza, natural de Orio, ainda se podem ver lintéis com gravuras representando navios baleeiros no bairro medieval.

A cidade de Zarautz, dez quilómetros mais à frente, corre paralela a uma praia magnífica, com palacetes, restaurantes e esplanadas eomar como pano defundo. Zarautz tem uma personalidade turística marcante desde que se tornou um destino favorito da aristocracia espanhola e europeia, juntamente com Donostia e Biarritz. Os toldos e barraquinhas brancos e azuis alinhados na areia são reminiscentes dessa época e o pintor Joaquín Sorolla captou-os com encanto no seu quadro Sob o toldo (1910).

No Inverno, a praia de Zarautz ganhou a reputação de meca do surf radical. As tempestades geram ondas gigantescas que são cavalgadas por surfistas experientes vestidos de neopreno, enquanto o público assiste ao espectáculo protegido pelas esplanadas.

Da praia de Zarautz, divisa-se o monte San Antón, apelidado como o Rato de Getaria devido ao seu formato. A seus pés, está Getaria, localidade a que se acede pela espantosa estrada panorâmica que corre ao longo da costa. É o local de nascimento de Juan Sebastián Elcano, o primeiro homem a completar a circum-navegação do planeta (pois Fernão de Magalhães morreu nas Filipinas, durante a viagem de regresso), e do designer de moda Cristóbal Balenciaga, que tem aqui um museu dedicado à sua vida e obra. Getaria também é considerada a pátria do vinho txakoli e do besugo assado. A descida em direcção ao porto pelas ruas das casas góticas é uma tentação por causa do aroma que emana das churrasqueiras. A magnífica igreja gótica de São Salvador, do século XV, ergue-se a algumas ruas do mar. Acolheu as primeiras Assembleias Gerais de Guipúzcoa em 1397. Apesar dos incêndios e restauros, manteve a sua aparência e estrutura originais.

De novo rumo a oeste, surge Zumaia, o início de uma paisagem suspensa no tempo. Esta cidade foi o retiro inspirador do pintor Ignacio Zuloaga (1870-1945). Das mesmas muralhas da Igreja-Fortaleza de São Pedro, do século XII, outrora refúgio para ataques de corsários, começa uma suave subida até ao eremitério de São Telmo, que parece flutuar sobre falésias fantasmagóricas. Trata-se do flysch, uma alternância de estratos geológicos que se elevaram verticalmente do fundo do mar pelo impulso das placas tectónicas. Deixam a descoberto 60 milhões de anos de história natural. Abriga fósseis únicos e até restos do cataclismo ligado à extinção dos dinossauros.

O litoral acidentado que se estende de Zumaia a Mutriku foi integrado na rede de geoparques da UNESCO. A partir do eremitério de São Telmo, pode seguir-se um segmento do trilho GR121 e do Caminho de Santiago. O percurso é marcado por suaves colinas e prados e permite a aproximação ao terraço marinho de Sakoneta, uma plataforma rochosa que as ondas esculpiram como se fosse massa folhada, com dobras onde a água se acumula na maré baixa.

Seja no trilho de caminhada de 15 quilómetros, ou de carro pela N-634, é sempre um prazer chegar ao município de Deba. No Verão, um mergulho na praia de Santiago será irresistível. No Inverno, a opção do banho é descartada, mas não a visita à igreja gótica de Santa Maria (século XV), uma das mais belas e majestosas do País Basco. Depois de deixar Deba e atravessar a ria, um desvio para a direita ao longo da GI-638 l leva-o, em apenas 15 minutos, a Mutriku, a última cidade deste itinerário ao longo da costa.

Mutriku, no limite litoral com Biscaia, é uma sucessão de vielas estreitas constituídas por uma mistura de casas de pescadores e palacetes brasonados que terminam no porto de pesca. A casa-museu de Don Cosme Damián de Churruca, um almirante da Armada Real, junta-se ao grupo de ilustres navegadores que a cidade viu nascer. E, naturalmente, a viagem termina no porto, vendo o Sol a pôr-se nas piscinas naturais ou jantando iguarias do golfo da Biscaia em qualquer um dos restaurantes locais, enquanto se observa os barcos a balançar suavemente. Embora se possa escolher, não é pecado optar pelas duas. 

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