Grand Canyon

Mesa Arch. O sol da manhã ilumina o arco mais famoso do Parque Nacional Canyonlands. O rio Colorado corre 600 metros mais abaixo.

Pináculos, arcos, antigas habitações e desfiladeiros são as estrelas nos parques nacionais de Arches, Mesa Verde, Monument Valley, Bryce e Zion. Siga-nos numa viagem que termina no Grande Canyon.

Texto: Carmina Balaguer

Uma falha colossal atravessa o planalto do Colorado no estado do Arizona. As suas dimensões descomunais, juntamente com a original sobreposição de rochas sedimentares, criam uma formação natural de grande impacte. O Grande Canyon ainda se aprecia mais depois de conhecer as reservas circundantes, onde a evolução das cores e formas geológicas acompanham o viajante do princípio ao fim.

A viagem começa no Parque Nacional Arches, um território visto de forma consistente por Edward Abbey, vigilante do parque durante a década de 1950. “Civilizações inteiras surgem e desaparecem, mas a terra permanece, ligeiramente modificada. Às vezes, penso que o homem é uma ilusão e que apenas a rocha e o sol são reais”, escreveu.

Em Arches, todas as rochas são afectadas pelo calor agudo que se faz sentir ao longo das eras.

O catálogo é generoso: há mais de dois mil arcos naturais. Alguns surgem sobre uma rocha ou penhasco; outros crescem independentes; outros ainda nascem em depressões e não esqueçamos as pontes naturais sobre ribeiros. O arenito é tão sólido como os textos de Abbey, e destas formas evocam versos de um poema. A secção Windows, uma concentração de arcos que inclui alguns dos maiores, como o Double Arch (34m de altura por 44 de largura) enquadra maravilhosas panorâmicas. Outros nomes, como Garden of Eden ou Parade of Elephants, recordam que este lugar é mágico.

A paleta cromática de Arches cativa especialmente durante o pôr do Sol, embora as primeiras fotografias que se fizeram deste local não conseguissem retratar o espectáculo natural. É o caso da famosa imagem que Flora Stanley, filha do empreendedor John Wesley Wolfe, instalado no Wolfe Ranch desde 1898, tirou ao Delicate Arch. A fotografia mostra duas pessoas debaixo do imponente arco, numa paisagem insípida por se apresentar a preto e branco. No entanto, a cena é subtil, tal como o próprio local.

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A família Wolfe foi a primeira a instalar-se nestas terras. Tribos indígenas de caçadores-recolectores como os hopi, ute e paiute já aqui se tinham instalado muito antes, gravando a sua arte rupestre nas rochas, quer em Arches quer no vizinho Parque Nacional Canyonlands, sulcado pelos rios Colorado e Green. Os hopi estavam ligados aos anasazi (“os antigos”, em navajo), hábeis agricultores e arquitectos que colonizaram Mesa Verde entre os anos 600 e 1300.

Património Mundial desde 1978, este parque nacional do Colorado permite uma imersão na vida ancestral, contando com quase 1.500 sítios arqueológicos no planalto.

As comunidades autóctones cultivavam milho, feijão e abóboras e construíram casas nas escarpas salientes. Nesta área, ainda restam seiscentas casas, assim como torres de alvenaria, estruturas agrícolas e recintos cerimoniais semienterrados (kivas).

As paredes e os tectos enegrecidos pelo fumo evocam cenas do passado, onde o fogo e a água eram os principais recursos destes clãs que, acredita-se, tinham uma organização matrilinear. Estas marcas vêem-se em Cliff Palace, o maior povoado sobre o penhasco do parque, e noutros dois que se podem visitar: Spruce Three House e Long House. As visitas são sempre em grupo e seguindo as explicações dos vigilantes da natureza.

Para explorar Cliff Palace, ascendem-se as escadas de pedra e as escadas portáteis que se equilibram sobre o abismo. Assemelha-se a uma gigantesca gruta cuja abertura para o infinito faz lembrar uma lente grande angular. As construções não seguiram planificação arquitectónica e cada estrutura adapta-se ao espaço concedido pela plataforma rochosa. Mesa Verde é um labirinto físico que alimentou uma grande comunidade anasazi até esta ter abandonado o local em 1285, provavelmente devido a uma seca severa. Mas é, sobretudo, um labirinto temporal.

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O planalto do Colorado, além de incluir nove parques nacionais, reúne os locais de arte rupestre mais ricos dos Estados Unidos. O chamado Red Rock Country,  onde a erosão fluvial realçou as cornijas e monólitos de arenito como se se tratasse de um imenso baixo-relevo, foi o território dos anasazi. Esta cultura e as suas antecessoras expressaram os seus mitos e crenças através de petróglifos e pinturas nas paredes de rocha. Em Horseshoe Canyon, a Grande Galeria (61m) expõe 20 imagens antropomórficas de tamanho natural juntamente com outras que parecem espíritos tutelares. Novaledorio San Juan, um povo que conhecia a agricultura, a cerâmica e a música representou homens e animais partilhando o mesmo espaço. Em Nine Mile Canyon, encontraram-se mais de dez mil figuras num milhar de sítios arqueológicos. Para ver os petróglifos do desfiladeiro de Chelly (na imagem), é preciso contratar um guia navajo.

O deserto volta a ser protagonista na aproximação a Monument Valley, uma depressão na fronteira meridional do Utah com o Norte do Arizona que surpreende pelas suas formações rochosas cujas dimensões variam entre 120 e 300 metros de altura. À chegada, uma estrada larga conduz ao acesso. A luz projecta-se livremente sobre esta área, enquanto os blocos de rocha se elevam no horizonte ilusoriamente equilibrados entre si.

Esta reserva, actualmente gerida pelos navajo, foi cenário de vários westerns e longas-metragens desde que Harry Goulding, um comerciante que chegou aqui em 1920, enviou imagens do local para Hollywood. O Museu Goulding’s Lodge recorda esse passado cinematográfico. Aqui, começa o Valley Drive, um trilho com 27km que pode ser percorrido por veículos e que apresenta ícones como as West e East Mitten Butte, as Three Sisters, o Totem Pole ou o John Ford’s Point, o local onde o famoso cineasta captava os planos gerais.

Uma vez ali chegados, olhamos de um lado para o outro, recordando o movimento da câmara no filme No Tempo das Diligências, quando os apaches aguardavam sobre uma colina pela chegada da carruagem. Embora o cinema tenha criado raízes neste vale, há paisagens que aludem a outros cenários. Para visitar Monument Valley antes da alvorada e aceder às suas paisagens mais sublimes, é preciso contratar uma visita em todo-o-terreno ou a cavalo com um guia navajo.

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As tribos indígenas no Museu Heard em Phoenix. Ao viajar pelo Arizona, Colorado ou Novo México, é habitual encontrar índios navajo, a segunda comunidade indígena mais numerosa dos Estados Unidos, depois dos cherokee, e a que possui a reserva mais extensa, com 70.000km2 (a área da Irlanda), onde se encontra Monument Valley. Ocarácterseminómadadestepovoaindasereflecte nas caravanas que lhes servem de habitação ou na precariedade das suas casas. A ruptura com as tradições foi trágica. Para conhecer a história desta comunidade e outras do Sudoeste dos Estados Unidos, o ideal será visitar o Museu Heard em Phoenix (Arizona). Os visitantes ficam espantados com as bonecas cerimoniais dos hopi, as jóias dos zuni, com a beleza dos tecidos ou com os cestos vegetais impermeabilizados e concebidos para conter líquidos. É comovente a história de milhares de crianças transportadas, frequentemente à força, para as escolas estatais para serem “civilizadas”.

Um gigantesco anfiteatro com milhares de agulhas, todas semelhantes mas nenhuma igual, dá as boas-vindas ao Parque Nacional Bryce Canyon, a quase 3.000m de altitude, no Utah. Os hoodoos saúdam o visitante com as suas formas e tons que oscilam entre o vermelho, o branco, o amarelo e o laranja. As suas dimensões variam entre o tamanho de um homem até ao de um edifício com 10 pisos e cativam como um espectáculo único.

O cenário, aliás, avista-se a partir do Navajo Loop Trail, de onde se vislumbra também a Silent City, com formações rochosas semelhantes a torres e templos. Para o este, vê-se o chamado Temple of Osíris, deus egípcio da ressurreição.

A contemplação destes dois locais aliada aos seus nomes transporta o visitante para uma espécie de limbo comandado pelos ciclos da natureza. A voz da terra também está presente no miradouro Bryce Point, assim baptizado em homenagem a Ebenezer Bryce, o construtor naval que viajou com os colonos mórmones e que deu também nome ao parque. É útil chegar aqui na alvorada, quando as primeiras luzes do dia parecem levar fogo às copas dos hoodoo, ou chaminés das fadas, e a rocha quase parece tornar-se transparente. O fumo imaginário impregna o horizonte, alimentando uma lenda dos indígenas paiute segundo a qual um grupo de animais tinha o poder de se transformar em pessoas. Como estes animais eram malignos, o totem Coyote converteu-os em rochas, Desde então, estão dispostos em filas, agarrando-se uns aos outros, vivos e parados ao mesmo tempo. São os hoodoos.

A paisagem muda por completo quando se entra no Parque Nacional Zion, no Utah. A luz escorre pelos imponentes desfiladeiros e penhascos de arenito com mais de mil metros, sob os quais passa o rio Virgin. Nas suas margens, surgem pinheiros, zimbros e carvalhos. Nos 60 mil hectares limítrofes, encontram-se pavões selvagens, lobos-cinzentos, pumas e veados.

O parque tornou-se popular graças às pinturas de Frederick S. Dellenbaugh que, em 1903, passou um Verão a pintar as suas paisagens. As suas impressões ficaram gravadas em pinturas a óleo e em frases como “nunca antes uma montanha de rocha tão despida entrou nas nossas mentes. A sua forma transcendente eleva-se como um ser supremo. Este Grande Templo tem a beleza da eternidade”. A sua obra contribuiu para que o presidente norte-americano William Howard Taft classificasse o local como Monumento Nacional Mukuntuweap em 1909, um nome que evoca os paiute que aqui viviam antes da chegada dos missionários mórmones. Em 1919, a área recebeu o nome de Parque Nacional Zion, título inspirado no monte Sião, o monte da paz e liberdade citado nas passagens bíblicas. A matriz mística envolve quem visita Zion Lodge, o único alojamento e restaurante do parque, fundado em 1925, e o The Narrows, o desfiladeiro esculpido pelo rio Virgin que se percorre caminhando pelas suas águas frias.

Grand Canyon

Os parques do sudoeste.

Documentação. Passaporte e formulário ESTA.

Como chegar. A partir de Portugal, existem voos, com escala, para Phoenix, Salt Lake City ou Las Vegas.

Como deslocar-se. Em carro de aluguer ou autocaravana.

Clima. As noites podem ser frias mesmo no Verão, pois alguns destinos encontram-se a cerca de 2.500m de altitude.

Alojamento. Em Julho e Agosto, convém reservar antecipadamente alojamento nos hotéis e parques de campismo das zonas mais conhecidas.

Parques nacionais. A tarifa é de 30 dólares para um veículo com 4 ocupantes. Se visitar mais de dois parques, é mais barato comprar a entrada anual (80 dólares).

A viagem continua a deslumbrar quando se chega ao Parque Nacional do Grande Canyon, um desfiladeiro descomunal que chega a ter 1,6km de largura entre margens e onde se fundem todas as cores, formas e sentidos. A sua história começou há dois mil milhões de anos (quase metade da idade do planeta), com a formação de rochas ígneas e metamórficas e a posterior sedimentação no leito oceânico. Há 65 milhões de anos, o terreno elevou-se milhares de metros, convertendo-se no planalto do Colorado.

A imensa bacia do rio começou a formar-se a partir dessa altura.

O som do Colorado emociona quer se faça rafting ou se caminhe pelas profundezas do desfiladeiro. A maioria dos visitantes, porém, contempla-o de cima, pois a descida ao curso do rio obriga a suportar temperaturas de 40ºC no Verão e de seguida a enfrentar uma subida de várias horas até regressar à margem superior. Além de inúmeras espécies de aves, o parque conta ainda com veados, ursos, pumas, mulas, carneiros-selvagens, bisontes e esquilos.

Vários artistas sentiram-se atraídos pela beleza deste desfiladeiro, sobretudo a vertente norte, menos visitada. É o caso de Bruce Aiken, que em 1972 se transferiu para ali e se dedicou a cartografar cada rocha e cada planta. Trabalhou em Roaring Springs, o manancial que abastece de água as instalações do parque. Ali criou os filhos e pintou os seus quadros, depois de realizar centenas de esboços. “Para desenhar, estuda-se a anatomia do corpo humano. A compreensão desta paisagem exige o mesmo”, recorda.

O visitante deve aproximar-se de North Rim com um espírito de artista para descobrir as camadas deste desfiladeiro que se assemelha a uma pintura viva. Não deve perder o trilho de Point Imperial, que conduz o visitante ao ponto de onde se avista o célebre Painted Desert.

A partir de South Rim, a secção do lado sul, inúmeros miradouros dão acesso a panorâmicas únicas. Podem percorrer-se a pé, de bicicleta, de carro ou de autocarro gratuito. Na rota Desert View, o Grand Viewpoint mostra a sinuosidade do rio Colorado à distância, enquanto a panorâmica que se obtém em Navajo Point mostra o desfiladeiro como um coração repleto de filamentos, com as suas subtilezas e fortalezas. No final do trajecto, o Desert View Watchtower recorda a cultura hopi descendente dos índios pueblo. As paredes desta torre, construída em 1932 por Mary Colter, são uma mistura de estilos e materiais que encaixam de forma orgânica, numa desordem que esconde uma ordem. Tal como o desfiladeiro.

O pôr do Sol convida a descobrir Hermit Road, onde o miradouro Powell resume a epopeia do explorador John Wesley Powell, o primeiro a percorrer a totalidade do curso do rio Colorado em barco a remos, de 1869 a 1871. Também não deve descurar a visita a Pima Point. A brisa envolve este final de viagem. É o ar do passado, que transporta as marcas das culturas que percorreram estes caminhos durante milénios. Mas também leva consigo o vento do futuro, pois deste ponto o horizonte parece infinito.

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