grã-canária

ROQUE NUBLO. A luz da alvorada ilumina o monólito de Roque Nublo (1.813m), que se eleva 80 metros numa plataforma rochosa. O Teide, visível ao fundo do manto de nuvens criado pelos ventos alísios, dista mais de cem quilómetros.

A Grã-Canária tem a maior cidade do arquipélago, uma vasta colecção de praias, aldeias onde o tempo flui devagar e montanhas imponentes.

Texto: Mar Ramírez

Da cidade da luz, Las Palmas, às rochas dos cumes onde começam as ravinas, a Grã-Canária cativa com os seus recantos tropicais e a autenticidade das suas povoações.

Para lá do brilho das dunas de Maspalomas, a Grã-Canária é uma concha vulcânica em pleno Atlântico, sulcada por desfiladeiros profundos. Quando sechega àcidade de Las Palmas vindos de sul, a primeira irregularidade no horizonte é o antigo bairro piscatório de San Cristóbal. Destacam-se as casas garridas, as hospedarias com vista para o mar eo castelo construído por Filipe II para defesa contra os corsários.

A Catedral de Santa Ana marca Vegueta, o núcleo histórico e aristocrático da cidade. Mal se abandona a zona ribeirinha, emergem as casas de estilo colonial, com varandas de madeira de pinheiro das Canárias ricamente esculpidas. No Palácio do Governador, Colombo terá pedido ajuda para reparar La Pinta antes da viagem para as Caraíbas. Embora este lugar tenha hoje o seu nome, nunca foi a sua casa, mas constitui um bom museu para acompanhar as viagens de Colombo, através de réplicas de caravelas, de um dos astrolábios que usou e de cartas náuticas antigas.

Desde 1497 até à sua conclusão no século XIX, a única catedral das Canárias era a de Santa Ana. O basalto azulado da fachada protege as palmeiras usadas para as abóbadas em cruzaria. Existem muitas obras de arte nas onze capelas, como as esculturas do escultor autóctone, José Luján Pérez.

A mais venerada é a Virgem da Antígua, uma peça idêntica à da Catedral de Sevilha. Atravessando o Pátio das Laranjeiras, encontra-se a colecção do Museu de Arte Sacra e uma amostra excepcional de arte colonial da América.

O conjunto de belos edifícios, como o Palácio do Bispo, as neoclássicas Casas Consistoriais e a Casa do Regente constroem a opulência da Praça de Santa Ana. No entanto, o elemento arquitectónico mais fotografado nesta zona são os oito cães de ferro fundido em frente da fachada da catedral. Não se sabe se foram doados por Thomas Miller, pioneiro britânico na ilha, ou por um navio que, danificado a caminho de outro continente, pagou pelo conserto com os cães.

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Os pinheiros e a Virgem

Teror, uma aldeia pacífica junto do desfiladeiro de Madrelagua e no sopé das montanhas, abriga a basílica da santa padroeira da ilha, Nossa Senhora do Pinheiro. Segundo a lenda, a primeira imagem da Virgem apareceu no dia 8 de Setembro de 1481 na copa de um enorme pinheiro das Canárias. A imagem actual é do século XVI e é atribuída a Jorge Fernández Alemán, autor do retábulo do altar-mor da Catedral de Sevilha. A fonte milagrosa que corria junto do Pinheiro das Maravilhas secou e um vendaval fez cair a árvore em 1684. A Cruz Verde assinala o local onde se encontrava. Dos pinheiros que cercavam o templo há décadas, restam apenas dois que se erguem junto da fachada e outro na zona posterior, além de uma frondosa figueira de Goa.

Em Vegueta, destaca-se também o Museu das Canárias e sua colecção do rico passado indígena local, que inclui peças de cerâmica líticas e têxteis. Por seu lado, o mercado de Vegueta submerge o visitante num ambiente popular, com os pequenos bares de tapas e, acima de tudo, com o peixe fresquíssimo do Atlântico ea banca de José Quintana, a terceira geração de comerciantes apaixonados pela fruta e vegetais da ilha. No mercado, também se pode encontrar o requintado e cremoso queijo da Guía, mais fácil de digerir graças ao facto de o leite ser coalhado com flor de cardo.

O bairro de Triana, com o seu marcado ambiente comercial entre fachadas modernistas, faz lembrar uma avenida parisiense. O Teatro Pérez Galdós é a mais imponente fachada marítima de Triana.

São Telmo, o porto original, é hoje uma estação de autocarros. A ermida de São Telmo é uma piscadela de olhos a essa cumplicidade marinheira. No tecto de estilo mudéjar, pode ver-se pequenas embarcações oferecidas ao santo padroeiro dos marinheiros. O santo divide a devoção com O Senhor na Burrita que sai em procissão anualmente no Domingo de Ramos.

O Parque Doramas, uma homenagem ao último chefe indígena da ilha que resistiu à colonização no século XV, rodeia o histórico Hotel de Santa Catalina. De estilo colonial inglês, acolheu personalidades como Agatha Christie, Gregory Peck ou Winston Churchill. Está localizado na Cidade Jardim, um bairro residencial onde os britânicos instalaram uma colónia ultramarina informal no auge da navegação a vapor, quando a ilha se transformou numa base segura para a navegação marítima e alimentou negócios prósperos.

Las Palmas cresceu sobre areais e nas áreas rochosas do istmo que a ligava a La Isleta, uma península que originalmente foi uma ilha criada por três vulcões. Desse passado, permanecem duas excelentes praias: Las Alcaravaneras, a leste (cujo nome é uma homenagem ao alcaravão, uma ave estepária que fazia o ninho no solo pedregoso) e Las Canteras, a oeste.

Grã-Canária

A ilha de Grã-Canária

Como Chegar. Existem voos de Lisboa e do Porto para Las Palmas. Os voos têm uma duração de 2h20. Com ligação, duram em média seis horas.

Clima. As temperaturas amenas (25ºC de média em Agosto, 18ºC em Janeiro) permitem banhos de mar ao longo do ano. A ilha tem quase 60 praias. O Sul e o Sudoeste, a sotavento dos ventos alísios, usufruem de muitos dias sem nuvens e concentram a maioria dos 65 mil alojamentos hoteleiros.

grancanaria.com/turismo/pt

Las Canteras estende-se por quatro quilómetros e ostenta orgulhosamente a bandeira azul. É uma das melhores praias urbanas do mundo. A actividade por aqui não cessa nunca. Basta ficar sentado num miradouro privilegiado, como a esplanada do Hotel Rainha Isabel, para captar a alegria e o apreço que esta praia desperta na população. A barra rochosa que corre paralela à costa protege-a das ondas. Passeios em caiaques de fundo transparente convidam à descoberta da biodiversidade subaquática que coexiste com a cidade.

Para se despedir da cidade, o ideal é fazê-lo com a panorâmica oferecida pelo moderno farol que é o Auditório Alfredo Kraus, um tenor nascido em Las Palmas. A sua enorme janela permite que se ouça a Orquestra Filarmónica da Grã-Canária enquanto se observa a cidade ou o mar. A orquestra foi fundada em 1845 para animar a partida dos navios a vapor.

Assim que se sai da cidade, a costa norte de Arucas constitui um geoparque por natureza. As várias cores e texturas das ravinas explicam os fenómenos eruptivos e sedimentares da ilha, como se esta fosse um enorme bolo.

Rural e montanhosa, entre plantações de bananeiras, Arucas é uma povoação de estilo colonial que se destaca na igreja neogótica de São João Baptista. Conhecida informalmente como catedral pelas suas dimensões notáveis, é feita de basalto azul da região, famosa pelas suas pedreiras, onde há um século trabalharam centenas de canteiros e labrantes (escultores de pedra). O rum Arehucas, destilado na localidade, é o mais consumido no arquipélago.

Junto da praia de El Puertillo estão as Salinas del Bufadero, as únicas localizadas nas rochas das cinco que restaram da época em que o mar era a principal fonte de sustento. Nesta costa rochosa do Norte, encontram-se piscinas naturais muito populares, como Los Charcones, em Bañaderos, ou o Charco de San Lorenzo, em Moya. Punta de Sardina oferece o melhor local para nadar com tubarões-anjo.

O passado da ilha descobre-se à medida que as ravinas se tornam mais abruptas, através do Cenobio de Valerón, com quase trezentos silos escavados na rocha. Inicialmente, acreditava-se que estas cavidades compunham um eremitério, daí o nome, mas eram na verdade silos para cereais, que se conservavam em excelentes condições graças à frescura do local. Há mais na ilha e assemelham-se aos agadíres típicos do Sul de Marrocos. Em Gáldar, encontra-sea Caverna Pintada, um dos principais assentamentos aborígenes. Os motivos geométricos vermelhos, pretos e brancos estão entre os vestígios rupestres mais importantes da região. Agaete é um pomar tropical onde crescem as melhores laranjas da ilha, além de mamão, abacate e manga. O vale íngreme é dominado pelos negros contrafortes de Tamadaba, onde se desenvolve o mais espectacular pinhal da ilha. A água infiltra-se no penhasco e corre para o vale. Há um século que as pequenas plantações de café da apreciada variedade arábica são cultivadas em herdades como La Laja, em Los Berrazales.

A estrada afunila no sopé das falésias, para onde fluem os caideros, cascatas que deslizam sobre as falésias de lava mais resistentes e mais antigas.

Aves marinhas como a cagarra, que quase só se desloca a solo firme para reprodução, e a quase extinta alma-negra gostam deste lugar.

Um desvio na estrada velha dá acesso à chamada Andén Verde e ao Miradouro de Balcón, a 500 metros, uma escala sublime na viagem e uma recompensa inesquecível.

A aldeia de San Nicolás, entre palmeiras e casas cúbicas esbranquiçadas de ar mourisco, viveu tempos gloriosos graças ao tomate das Canárias. As estufas europeias fizeram-na decair, apesar do sabor mais genuíno da variedade insular, uma mistura de sol e solo vulcânico que torna este tomate único.

Grande parte do Oeste e Centro da ilha integram a Reserva da Biosfera da Grã-Canária, que convida à exploração a pé de um dos seus recantos mais atraentes: a agreste paisagem de Güigüi. Entre escarpas de extraordinário valor vulcanológico, abriga-se um maravilhoso tapete de cactos e vegetação rasteira a curta distância do Miradouro da Degollada de Veneguera. Mais adiante, a caminho de Mogán, surge otom esverdeado de Los Azulejos, um vestígio do primeiro vulcão em escudo que formou a ilha há 14,5 milhões de anos.

O grande desfiladeiro da ilha é o de La Aldea. A ascensão ao topo das falésia afiadas como lâminas é a forma de aceder a Artenara, a povoação mais alta da ilha (1.270m) e a que melhor preservou, juntamente com a ravina de Guayadeque, as habitações dos primeiros habitantes das Canárias: as casas-gruta.

O Miradouro de la Cilla permite observar a famosa caldeira vulcânica de Tejeda e a sagrada chaminé vulcânica de Roque Bentayga, um local de culto então no coração dos assentamentos indígenas.

cumes

Cumes agrestes. Em 14,5 milhões de anos, os vulcões da Grã-Canária sofreram uma erosão profunda, como o testemunha a rede de ravinas da ilha. A variedade de paisagens e formações geológicas convidam a todo o tipo de excursões, geralmente por caminhos antigos ou canais. A Grã-Canária também dispõe de um vasto conjunto de vestígios dos primitivos habitantes da ilha: celeiros, cavernas, locais cerimoniais e necrópoles...

Estamos na coroa de montanhas e rochas que definem os cumes, onde se pode aproximar e passear pelo Roque Nublo, cujo pináculo rochoso emerge como símbolo e eixo vertical da ilha. Encosta abaixo encontra-se a cratera de Los Marteles, uma caldeira afundada há um milhão de anos, onde rodopiam as nuvens de barlavento carregadas de humidade. Muito mais jovem (a sua forma actual nasceu há 5.000 anos) é a abismal Caldeira de Bandama, em Tafira. Tem um quilómetro de diâmetro e o mais antigo clube de golfe da ilha, a 200 metros da sua borda. A última erupção ocorreu há 1.970 anos, mas prevalece a reminiscência de que a Grã-Canária é filha dos vulcões.

O desfiladeiro de Tirajana, um oásis onde a água corre permanentemente entre palmeiras e campos de trabalho, oferece uma visão estelar de um dos melhores céus do mundo graças ao Observatório Astronómico Temisas. O firmamento deveria espantar os primeiros habitantes da ilha quando estes se estabeleceram em torno de La Fortaleza, uma montanha em cuja caverna, localizada na área mais alta e mais sagrada, entra o último raio de Sol do solstício de Verão. Celeiros, aldeias, área cultural ereligiosa, gravuras rupestres e uma área funerária – o conjunto constitui um dos locais mais antigos e mais longamente habitados da ilha. Depois deste périplo, resta o grande Sul com a sua hospitalidade turística, areias sedosas e uma das frentes dunares mais fascinantes, a de Maspalomas. O Saara dista apenas 200 quilómetros.

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