Mesão Frio 

Viagem por um território com os pés fincados no solo, na vinha e no futuro.

Texto: Manuel Vitorino

Por estes dias, o Douro ainda corre manso até à foz, os turistas chegam aos magotes em busca da paisagem belíssima, património secular, degustações de néctares de excelência, um dos melhores do mundo. A calma é só aparente. Nas quintas, produtores, enólogos e gente ligada às adegas vivem dias de agitação, estabelecem-se prazos para as vindimas e, em muitos casos, o ritual já começou. Um dos pontos de partida é Mesão Frio, curvas e contracurvas a serpentear o rio, terra de solares setecentistas, parte integrante do Douro, Património Mundial, imortalizado por Torga, João Araújo Correia, A.M. Pires Cabral, Alves Redol e Domingos Monteiro, escritor esquecido, fabuloso contador de histórias, mais de trinta livros publicados, o primeiro dos quais de poesia, aos 16 anos, com prefácio de Pascoaes.

Cheguei a Barqueiros, topónimo e freguesia de antigos arrais e marinheiros de barcos rabelos, ainda o Douro estava cheio de neblinas e, por instantes, recordei António Cruz, o maior aguarelista do Douro, imortalizado em O Pintor e a Cidade, de Manoel de Oliveira e depois, em Douro, Faina Fluvial, filme exibido em diversos concelhos do Douro, Pinhão, Tua e Alfândega do Porto.

Podia ficar por outras navegações, mas o guia digital indica-me andar próximo do Centro Interpretativo do Barco Rabelo, um edifício adaptado da antiga escola primária, onde desaguam outros saberes e ofícios, o transporte de pipas de vinho até às caves do Porto, recordações da comunidade, fotografias, documentos, vídeos, uma viagem lúdica e pedagógica sobre um rio e um tempo marcado por naufrágios e morte.

As vindimas merecem atenções nesta peregrinação sobre Mesão Frio, “porta de entrada” para o Baixo Corgo e, por isso, começo na Quinta da Rede, mantida inicialmente pelos proprietários por questões sentimentais, mas apostando na sustentabilidade, com painéis fotovoltaicos e produção de energias renováveis, novo design e diversificação de produtos. O Douro começou aqui e, mesmo com alterações climáticas, continuará a produzir vinhos de grande qualidade, acidez, frescura e elegância.

Mesão Frio

O mesmo entusiasmo é partilhado na Quinta de São Bernardo, fundada no século XVIII, depois, sucessivamente reestruturada para a produção de vinhos e, desde 2015, vocacionada para o enoturismo. O novo hotel rural deverá ficar concluído em 2023 e, enquanto tal não acontece, continua a oferta de alojamento, provas e degustações de vinhos, visitas a adegas. Como em cada canto e esquina existem memórias, nesta quinta construída à beira-rio os registos indicam a instalação do primeiro Marco Pombalino (actualmente, submerso) como testemunho do início da região duriense. O Baixo Corgo é a entrada para o Douro e os barcos rabelos quando desciam o rio atracavam aqui a caminho dos armazéns de Gaia.

Como há mais a descobrir, viajei por caminhos íngremes até à freguesia de Cidadelhe, sempre com o Douro a perder de vista e com permissão de entrada na Quinta do Côtto, da família Montez Champalimaud, primeiros registos com datação do século XIV e alguns séculos depois, no primeiro quartel do século XX, num período dedicado à modernização da adega, produção de vinhos brancos, tintos e vinhos do Porto. Em 2017, registou-se nova mudança de geração na gestão, com impulso renovado no modo de produzir e comercializar vinhos: são cerca de 70 hectares de vinha, 250 mil garrafas/ano, um portfólio de marcas reconhecidas internacionalmente ligadas à Quinta do Côtto. Descendo ao centro da vila, situa-se a Adega Cooperativa de Mesão Frio, com 450 associados e 5.000 pipas por ano: são cerca de três milhões de litros de vinho maduro, entre os quais 1.500 pipas de vinho do Porto e o resto DOC.

Mesão Frio

Apesar de o vinho dominar as atenções e centralizar as conversas, não se pode perder de vista a Igreja de São Nicolau, a mais antiga e com lindíssimos altares de talha dourada. Existe também o Museu do Triciclo, paixão de Jorge Rodrigues, com cerca de seiscentos exemplares, incluindo peças do século XIX, com valor histórico, afectivo e patrimonial, numa viagem ao mundo da infância. Depois, não se pode perder também as arcas tumulares da Igreja de São Nicolau, o castro céltico de Cidadelhe; a Ponte Cavalar, em Vila Marim; oua Torre de Santa Cristina, em Santo André.

A curiosidade conduz ao Miradouro de São Silvestre, talvez o mais apreciado devido ao seu enquadramento na paisagem. Segue-se um pulo ao Miradouro do Imaginário, o mais recente, em forma de barco virado para o rio, e outro à Casa da Vista Alegre, em Barqueiros, a fazer lembrar os tempos da Belle Époque, um chalet em cima da colina com vinhedos à volta e vista privilegiada para o Douro, construída por um emigrante afortunado no Brasil. Podia servir de cenário a um filme romântico, mas parou no tempo como uma memória congelada.

A viagem a esta parcela do território duriense não podia terminar sem uma visita à Casa das Quintãs, onde viveu o escritor Domingos Monteiro (1903-1980) nascido em Barqueiros, dinamizador de tertúlias literárias e políticas na sua mansão senhorial debruçada sobre o Douro, amigo de Pascoes e de João Araújo Correia. Nesta casa povoada de memórias, também cá viveu o escritor Pina de Morais e a sua filha, Graça Pina de Morais, autora de vários romances, entre os quais o premiado Jerónimo e Eulália. No livro Viajar Com…Os Caminhos da Literatura, estabelece-se uma cronologia sobre a vida do escritor, a sua paixão pelo Douro, a caça e a terra e a bibliografia repartida pela poesia, ficção e romance.

Ainda a viagem não terminou e terei de regressar para conhecer outros lugares, paisagens e castas da mais antiga Região Demarcada do Mundo. Na volta, trago um livrinho precioso. Roteiro Sentimental: Douro, de Manuel Mendes, reeditado em 2002. Será outra viagem, porventura mais afectiva e emocional, mas também uma homenagem ao extraordinário contador de histórias da região duriense.

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