mina de sal-gema Loulé

Sob a cidade algarvia, a 230 metros de profundidade, existem catedrais e galerias de sal, testemunhos imperdíveis do engenho humano e da versatilidade da natureza.

Texto: Gonçalo Pereira Rosa
Fotografias: Alexandre Vaz

Esta é uma história que começa de forma pouco auspiciosa. Na década de 1950, num período de seca prolongada, a comunidade agrícola de Loulé retirava o sustento da campina que então marcava o limite da vila. Durante a seca, foram feitas sondagens para captação de água em aquíferos profundos. Dos poços, porém, chegava água salobra. Inadvertidamente, descobrira-se um enorme depósito subterrâneo de sal-gema.

Na década seguinte, após comprovação das sondagens, iniciou-se um projecto de investimento numa mina de extracção em grande quantidade deste recurso para utilização na indústria química. Com o tempo, rasgaram-se galerias e câmaras com 45 quilómetros de extensão para extrair milhares de toneladas de sal-gema. É como se uma toupeira gigante tivesse esventrado o subsolo bem por baixo de Loulé em incansáveis deambulações.

Testemunho da presença antiga de um mar salgado nesta região, o depósito encontra-se a 230 metros de profundidade e a uma cota que corresponde a 30 metros abaixo do nível do mar. No elevador de superfície rústico mas seguro, descem-se 230 metros em 3 minutos e chega-se ao patamar que testemunha depósitos formados há 230 milhões de anos. É a única mina de sal-gema do país com extracção em túneis e não por salmoura. Após intensa exploração entre 1964 e 2018, a concessão da mina foi então cedida à Tech Salt, empresa que incutiu um novo dinamismo ao espaço mineiro. A extracção ainda prossegue: cerca de seis mil toneladas por ano para utilização maioritariamente na segurança rodoviária (para derreter camadas de gelo e neve sobre o asfalto) e para rações animais. Mas foi também abraçada a ideia de que uma mina não tem necessariamente de ser um espaço de agressão. A frase de ordem é “green mining”, traduzida na perspectiva de reutilização do espaço mineiro como espaço expositivo, museológico e pedagógico.

Desde 2019, organizam-se quatro visitas diárias à mina (apenas nos dias úteis), nas quais o visitante é desafiado a acompanhar todo o processo de desagregação dos blocos por roçadoras (que substituíram há 30 anos as explosões controladas) e respectiva moagem até chegar ao produto final, pronto a embalar. Oito mineiros e restante equipa de apoio conferem à experiência uma autenticidade que a maioria dos complexos mineiros não consegue replicar, pois aqui visita-se uma unidade que prossegue a laboração.

mina de sal-gema Loulé

Estão previstas outras ideias de aproveitamento de um espaço cénico notável, onde não faltam sequer estalactites de sal. Já se realizaram concertos, exposições e até um debate televisivo nas profundidades. A Tech Salt tem a expectativa de organizar também programas de turismo de saúde, já que a acção das roçadoras produz apenas como resultado a elevação de pó de sal para a atmosfera, aliviando a respiração dos asmáticos e sem as indesejadas consequências para a saúde de outros complexos mineiros.

Das cavernas de Júlio Verne ao inferno de Dante, a literatura abraçou há muito a ideia desafiadora de universos de vida em subterrâneos. Quem diria que, porbaixo de Loulé, existe também uma cidade de sal?

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