ouguela

Uma velha controvérsia ainda tem consequências reais. Ouguela, terra de um castelo e de grous, marca uma página da nossa história.

Texto: Mário Rio

Nos mapas da Península Ibérica, a linha de fronteira que separa Portugal de Espanha está interrompida entre o Caia, em Elvas e a ribeira de Cuncos em Mourão. E isso não sucede por capricho do cartógrafo. No terreno, quando a fronteira entre os dois países não é delimitada por rios, os marcos fronteiriços numerados repetem-se a cada quilómetro. Ao longo de quase cem quilómetros, não foram colocados os marcos 802 a 899.

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Este episódio marca uma disputa antiga sobre a soberania de Olivença que nem as relações amistosas entre os dois Estados nem o direito internacional conseguiram resolver. Ouguela fica a norte do Caia e aqui a fronteira não coloca grandes dilemas, mas nem sempre foi assim. Em 1297, o Tratado de Alcanizes definiu que Campo Maior, Olivença e Ouguela passavam para a posse definitiva de Portugal. Mais tarde, entre 1705 e 1715, Albuquerque, que é hoje um município da província de Badajoz esteve sob domínio português em consequência da Guerra de Sucessão de Espanha. Por isso, aqui, as fronteiras não são heranças do passado. Uma visita ao Castelo de Ouguela é mais do que uma viagem no tempo. Hoje, ninguém passa por aqui. Ou se vem de propósito, ou não se vem.

São sete quilómetros de estrada entre olivais e campos cultivados que a separam da sede de concelho.

O outeiro onde se implanta a fortificação eleva-se acima do ponto onde a ribeira de Abrilongo se junta ao rio Xévora. Cá em baixo, o santuário de Nossa Senhora da Enxara encontra-se implantado onde, segundo a lenda, Nossa Senhora fez uma aparição e é famoso pela romaria pascal.

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Entra-se na muralha hexagonal por uma porta imponente. No interior, os escassos habitantes não tiveram pudor de instalar antenas para apanhar o sinal de televisão que já ali chega fraco. A magia de Ouguela não reside no cenário restaurado com atenção ao ínfimo pormenor, mas na trajectória de uma aldeia modesta que sofre com o abandono do interior. Aqui não se paga bilhete, nem há horário de entrada, todos podem subir à torre de menagem e daqui admirar o pôr do Sol.

Para norte, ao longe, o relevo revela a serra de São Mamede e um pouco mais a leste o Castelo de Albuquerque evoca a história atribulada da fronteira que corre lá em baixo. Quem aqui vier entre meados do Outono e o final do Inverno avistará os grous a alimentarem-se. Mesmo que não os consiga ver é provável que oiça as inconfundíveis vocalizações que lhes deram o nome comum.

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