Parque do Barrocal

Antiga pedreira, lixeira e local de má fama, o Barrocal é hoje um ex-líbris da natureza.

No maciço granítico de Castelo Branco, está em curso uma experiência paisagística: o florescimento de um parque urbano sem régua nem esquadro.

Texto: Gonçalo Pereira Rosa

Em 1808, quando o pintor George Cumberland acompanhou as tropas do duque de Wellington até à cidade de Castelo Branco, representou, em traços rápidos, o que via: um castelo ocupando o principal relevo da paisagem, uma mancha urbana espreguiçando-se arriba abaixo e, a sudeste, um último reduto geológico indomável. Curiosamente, trezentos anos antes, quando Duarte d’Armas representara o mesmo local, a percepção não fora muito diferente: o castelo e a muralha dominavam a paisagem, um homem e dois burros caminhavam no vale e uma mancha espessa de arvoredo simbolizava o fim da cidade – o fim da civilização. Esse local, quer no quadro de Cumberland quer no desenho de Duarte d’Armas, era o Barrocal.

Ocupado desde o segundo milénio antes de Cristo, o Barrocal começou por ser, para os seres humanos que aqui viviam, um monte sagrado e simbólico e um território agropastoril. Alguns achados arqueológicos sustentam a ideia de que um povoado aberto terá coexistido com o santuário ao ar livre, humanizações que perduraram até à época romana.

Parque do Barrocal

No entanto, o Barrocal é um pedaço de história bem mais antiga. Muitas das suas rochas formaram-se há 310 milhões de anos e a 30 quilómetros de profundidade na crusta terrestre. Ao caminhante esbaforido que se queixe do Verão beirão valerá a pena lembrar que o maciço granítico do Barrocal se formou a 750ºC, pelo que o calor pode ser um conceito bem relativo.

Lentamente a rocha magmática com origem na crusta foi modificada pela tectónica, pelo clima, pela fracturação da rocha e pela recomposição mineralógica. Tudo no Barrocal demorou tempo a formar-se, embora o ser humano tenha tirado partido repetidamente de muitas estruturas: a Pedra da Rondoa, por exemplo (duas enormes bolas de rocha em contacto), deu origem a um abrigo ocupado desde a pré-história e a Cabeça do Alien é um dos muitos antropormofismos de que a cultura popular é fértil.

Parque do Barrocal

A cidade, porém, viveu de costas para este seu limite meridional. Durante décadas, o Barrocal foi território de pedreiras, em parte usadas para o boom construtivo da transição para o século XX. Foi igualmente vazadouro de lixo e entulho e território marginal, com frequência assolado por incêndios e ilegalidades.

Em 2016, o município lançou um desafio: poderia o Barrocal ser transformado num pulmão da cidade, assimilando a sua rica geodiversidade mas constituindo um parque urbano de referência? Aempresa Topiaris ganhou o concurso e fez do Barrocal uma tela de 40 hectares. A intervenção paisagística sente-se logo à entrada e no Túnel do Lagarto, uma curiosa estrutura que proporciona um jogo de sombras e luz aproveitando as tonalidades do pavimento de saibro e da cobertura metálica.

Parque do Barrocal

O Túnel do Lagarto e um dos blocos emblemáticos do Barrocal.

Pelos passadiços metálicos, o caminhante ziguezagueia entre pontos de interesse, aproveitando as elevações do terreno como observatórios de paisagem. Desde a inauguração em 2020, o Mirante do Barrocal e o Observatório dos Abelharucos tornaram-se pontos de referência, bem como a ponte suspensa de acesso ao Mirante de São Martinho. Aproveite igualmente o chuveiro que vaporiza com água os visitantes nos dias de estio e aproveite os bancos rebatíveis do Observatório para, com tempo, observar dissimuladamente a avifauna local. Se George Cumberland ou Duarte d’Armas regressassem a Castelo Branco, teriam hoje muito mais para pintar.

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