GeoRota do Orvalho

Ribeira do Orvalho.

Em pleno território do Geopark Naturtejo da Mundial da UNESCO, a GeoRota do Orvalho, no concelho de Oleiros, é um refúgio de paisagens bucólicas e um passeio de reencontro com a natureza entre ribeiras refrescantes e exemplares de flora antiga.

Texto: Paulo Rolão

O itinerário da PR3, ao longo de fragas quartzíticas e dos exuberantes vales das Fragosas e da Ribeira de Orvalho, corresponde a quase nove quilómetros e integra-se na vasta Grande Rota Muradal-Pangeia, um percurso pela natureza actual com constantes piscadelas de olhos à paisagem e aos organismos de outras eras que aqui viveram. Este é o primeiro sector português do Trilho Internacional dos Apalaches, que dos EUA percorre 12 mil quilómetros para aqui chegar.

A GeoRota do Orvalho recupera caminhos rurais de antanho e foi literalmente traçada à força de braços e de alguns arranhões. As acácias e outra vegetação rasteira dominavam a paisagem e exigiam destreza, força nas pernas e braços e fôlego ao caminhante. Foi assim até ao evento recente definidor do concelho – os grandes incêndios de 2017. Este percurso já existia até então e era particularmente apreciado pela sua elevada dificuldade, quer na época das chuvadas invernais, quer sob o sol abrasador no pino do Verão. Mas algo mudou em 2017.

Aproveitando as oportunidades para requalificação de equipamentos e percursos trazidas pelos acontecimentos trágicos desse ano, o município de Oleiros e a Junta de Freguesia do Orvalho deitaram mãos à obra. Foram construídos passadiços, limpa a vegetação e facilitada a caminhada. O esforço já não é hercúleo e a GeoRota democratizou-se. É agora uma oportunidade de caminhada acessível e mais inclusiva.

Naturalmente, muito mais visitantes começaram a afluir à região desde então. O ponto de partida é o centro de Orvalho, próximo do largo da igreja-matriz. Como a rota não é circular e não se termina necessariamente no ponto de partida, é conveniente atestar a mochila de alimentos e cantis de água. Os habitantes locais, com a tradicional gentileza beirã, já não olham com estranheza a nova fauna humana que acorre à aldeia com a curiosidade de experimentar um percurso diferente. Em Orvalho, velhas tradições são compatíveis com os novos visitantes.

Dando corda aos sapatos – ou melhor, aos ténis –, o caminhante afasta-se da povoação e começa a embrenhar-se na natureza, como nas fábulas nórdicas: o solo é escuro, pintalgado pelo verde da vegetação rasteira. Pinheiros-bravos, oliveiras, alguns exemplares de medronheiros e ocasionais azinheiras e sobreiros vestem as encostas. Mas o que impele o viajante está mais à frente, depois de transitar ao largo do monte da Senhora da Confiança e bem junto das fontes naturais da beira da estrada.

O serpenteante vale das Fragosas abre-se diante dos olhos. Nos meses frios, antes de a vegetação voltar a brotar com todo o vigor, a parede quartzítica parece ainda mais imponente. Ergue-se entre um emaranhado de bosques e um primeiro vislumbre do ribeiro de Água d’Alta.

Um pouco adiante, o caminhante é atraído pelo marulhar da água e por um lugar onde pode descansar e apreciar a paisagem. A Fraga da Água d’Alta é um dos maiores ex-líbris da rota: as águas caem de uma altura de 50 metros, saltitando aos longo de três socalcos, o que as leva a troar ao longe. Além da beleza cénica, o local tem evidente importância geológica – foi classificado como geomonumento desde a criação do geoparque, em 2005. Um olhar mais inquisitório detecta uma anomalia biológica: a biodiversidade que ali se abriga é especial.

Descendo por um caminho devidamente assinalado, encontram-se folhados e azereiros, as mais vistosas que uma diversidade botânica particular que os biólogos designam como flora-relíquia. São remanescências da floresta Laurissilva que forrava a bacia hidrográfica do Zêzere e que foi progressivamente vencida por espécies florestais adaptadas às alterações climáticas naturais que se sucederam no passado e, nos últimos dois séculos, pelo pinheiro-bravo de mais rápido crescimento e utilidade comercial. Como pano de fundo, a quartzítica serra do Muradal ajuda a compor o cenário de uma paisagem que poderia não ter mudado em vários milhões de anos.

A meta fica, entretanto, à vista. Em passos acelerados, o viajante completa os 8,9 quilómetros do percurso e atinge o topo do Cabeço Mosqueiro. Confere então o cronómetro: o trajecto toma-lhe cerca de três horas e meia, com dificuldade média, devido aos 900 metros de desnível acumulado. Corresponde, do ponto de vista geológico, a um recuo no tempo de quase 490 milhões de anos, como alguns fósseis o comprovam.

Já em modo de descanso, recomendam-se alguns minutos de contemplação no miradouro. A partir dali, avistam-se montanhas forradas a pinheiro em todas as direções, afloramentos rochosos entre manchas de esteva, carqueja e tojo e, no parque de merendas contíguo, revisitam-se os caminhos entretanto vencidos.

Há quem aproveite para voltar ao Orvalho, fazendo o caminho de regresso e atentando em pormenores não detectados na primeira caminhada: paredes rochosas com marcas de organismos de um passado remoto, moinhos de água, pontes pedonais, passadiços, habitats de lontras, e, uma vez mais, admirando as quedas-de-água, os ribeiros pristinos, a fauna e a flora exuberantes, ou o matraquear teimoso dos teares que formulam delicados paramentos em linho, a mais genuína lembrança a levar do Orvalho.

As badaladas da torre sineira da igreja recebem os viajantes. Chega a altura de rematar a missão com um mergulho na gastronomia local, onde o cabrito estonado é prato nobre regado com um inusitado vinho verde “Calllum”. Tradição, bem-receber e modernidade juntam-se em Oleiros na GeoRota do Orvalho.

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